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ENTREVISTA: O exibicionismo de Turner nos palcos [Telegraph]

03Alex Turner rasgara suas calças. Estamos atrás dos palcos do De Montfort Hall em Leicester, e ele as segura erguidas, portanto consigo ver um rasgo no traseiro. Elas se partiram algumas horas atrás durante a apresentação do The Last Shadow Puppets — mas Turner saiu às pressas.
“Eu sai silenciosamente e mudei entre as músicas,” ele diz, bebericando tequila e limão de um copo de plástico. “Não acho que alguém percebeu.”
Kane, um velho amigo de Turner, assim como seu parceiro musical de crime, ri antes de remomerar um problema seu de vestimenta antigo no palco, “eis eu com as calças rasgadas, então eu comecei a tirá-las. Esqueci que vestia cuecas de pele de leopardo que eu comprei pra uma piada.” Então, o que ele fez? Ele dá de ombros. “Deixei tudo assim mesmo.”
“Tudo que você precisa saber sobre nossa banda” diz Turner, “pode ser resumido por nossas calças.”
Enquanto os roqueiros indies de vendas multi-milionárias Arctic Monkeys estão em hiato —o guitarrista Jamie Cook e o baixista Nick O’Malley estão construindo suas famílias; o baterista Matt Helders está em turnê com Iggy Pop — Turner usa do Last Shadow Puppets para saciar seu gosto pelas mais exuberantes e barrocas eras de pop. O álbum de estreia deles, The Age of the Understatement, foi ao número um e foi indicado ao Mercury Prize de 2008. O sucessor tardio, Everything You’ve Come to Expect, acrescenta uma estranheza psicodélica e um contemporânea corte aguçado à suas harmonias melodramáticas.
As letras fagulhantes (principalmente, embora não com exclusividade, trabalhos de Turner) aborda amor e luxúria, integridade e engano com a mesma sagacidade poética que definira Turner desde que os Arctic Monkeys entraram em cena em 2006.

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E ainda, pessoalmente, Turner, o homem aclamado como a voz de sua geração, é surpreendentemente língua-travada. “Aonde eu vou com isso? Uh…Eu…Não…Desculpa, me perdi completamente,” ele diz em um momento. “Eu me ouço falando às vezes e eu tipo bleurgh (expressão pra vômito)!”
Não me leve a mal: Turner é atencioso e amigável, e parece genuinamente ávido a articular o que o The Last Shadow Puppets representa. Mas ele tem ambas tendências a pensar demais as coisas e uma falta de vontade de dizer até que encontre as palavras certas. Ao longo do nosso encontro, o esguio de 30 anos, curvado em si mesmo, falou dolorosamente lenta numa voz profunda de sotaque de Sheffield, pontuando suas sentenças com suspiros frustrados e gemidos de derrota. “Tipo…eh…ah…Eu não sei se consigo explicar isso, cara, eu queria, eu preciso…é…oh…Eu arruinei meu próprio dia. Não é você, cara. Eu mesmo estou fazendo isso.”
Ele pega uma garrafa de vinho à esquerda no quarto, presumivelmente para uma emergência desse tipo. “Vamos perseverar. Você nunca sabe; podemos encontrar ouro,” ele ri. “É mais escuro antes do amanhecer.”
No dia seguinte, Turner me envia um email de desculpas. “Eu fiquei muito distante de minhas ‘”notas internas” e poucas sentenças completei até o final,” admite, exibindo exatamente o tipo de ironia que você pode encontrar em suas composições.
No exibicionismo e exuberância dos Shadow Puppets, e seu ato ao vivo de quase cômica espontaneidade, ele explica: “Tive a fase onde eu gostava de ser parte de uma ‘máquina bem oleada’ e estou atualmente aderindo à noção de que os momentos mais imprevisíveis ou improváveis são provavelmente os mais divertidos. Isso também é um reflexo duma abordagem para composição. Acho que é a previsibilidade num monte de música pop moderna que impede de nos fazer sentir algo.”
De volta ao camarim no Leicester, com Turner ainda lutando para encontrar suas palavras, Kane estira sua cabeça à porta e um palpável senso de alivio preenche a sala. “Olha só ‘vocêis’, com a boca na botija! A tábua de queijo virá em, num minuto,” brinca, com seu forte sotaque Scouse.
“Eu fiquei num embate. Eu tinha que ‘bater’ um malbec (vinho),” diz Turner, animando-se imediatamente na presença de seu colega de banda. “Estamos tentando decifrar o significado disso tudo.” “Onde você conseguiu aquilo?” pergunta Kane.
“Minha gagueira habitual,” Turner admite. “Não há muitos becos sem saída que eu não estive.”
Um guitarrista empolgante e dinâmico por conta própria, Kane (também 30 anos) é muito mais direto, personagem menos complicado que Turner. Ele diz que o relacionamento deles foi estabelecido “no riso e estupidez generalizada”. Eles partilham uma obsessão incomum de pop dos anos sessenta e cara-de-pau, senso de humor britânico.
A tendência deles a se comunicar entre si — entregues em vozes engraçadas— os levaram à problemas, quando uma jornalista da revista americana de música, Spin Magazine, interpretou o estilo largadão e insinuante de Kane como intimadamente sexista.
Rapidamente, Kane desculpou-se mas permaneceu abatido sobre a controvérsia que se seguiu. “Acho que isso vai me ensinar a não fazer piadas idiotas.” Mas quando pergunto que Turner é tipo “atrás de portas fechadas”, ele irrompe num sorriso.“Ohh-é,” ele ri, desbragadamente. “Lá vamos nós de novo.”
A menos Turner, Kane tem um amor franco em ser uma estrela do rock e os Puppets lhe oferece a chance de colaborar com um compositor brilhante. Para esta parte, Turner é claramente energizado por seu amigo. “Escrevendo com Miles eu alcanço conclusões diferentes que eu teria do meu jeito,” diz. “Tem uma confiança que te encoraja a ir mais longe que qualquer caminho que você esteja.”

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Nos palcos com Kane, qualquer senso de inibição desaparece, e Turner se torna um vocalista muito espirituoso, extrovertido e com muita presença de palco. “Quando você está sozinho (como vocalista), o momentum é uma espécie de responsabilidade sua,” diz. “Quando há dois de você (vocalista), especialmente se você pode ir àquele lugar onde há uma incompreensão inaudita, então você potencialmente gera ainda mais momentum* (movimento de um objeto).”
Hoje, os The Last Shadow Puppets irão tocar no Glastonbury, um festival que Turner abriu com os Arctic Monkeys em 2014. “Provavelmente é melhor se você não pensar nisso. Se você começar a construí-la (ideia) em sua cabeça, é então que meu monólogo interno começa.”
Perguntei aos dois como eles gostam de gastar o tempo de ócio antes de subirem ao palco.
“Normalmente eu vou dormir,” diz Turner. “Vou estar de cuecas ouvindo uma compilação nortenha de soul,” diz Kane.
“E essa é a dicotomia pela qual operamos,” diz Turner, rindo. “É isso,” concorda Kane. “Isso diz tudo.”

 

Data: 25/06/2016

Fonte: Telegraph UK

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